79% dos CFOs vão aumentar orçamento de IA em 2025: como justificar o investimento

Dados do Bain Capital Ventures CFO Advisory Council mostram apetite por IA, mas 71% ainda não usam. Veja como montar um business case.

79% dos CFOs vão aumentar orçamento de IA em 2025: como justificar o investimento

79% dos CFOs pesquisados pelo Bain Capital Ventures CFO Advisory Council indicaram que seu orçamento de IA aumentaria em 2025. Ao mesmo tempo, 71% desses mesmos CFOs não estavam usando IA generativa em suas funções de finanças e contabilidade. Esse paradoxo — orçamento crescente, adoção baixa — revela um momento decisivo: o dinheiro está disponível, mas falta clareza sobre onde e como investir.

O levantamento da Bain Capital Ventures (BCV), que reúne mais de 50 CFOs de empresas com valor de mercado combinado superior a US$ 360 bilhões, traz dados que ajudam a entender esse cenário e, mais importante, a construir um business case que justifique o investimento de forma concreta.

O que os dados da BCV realmente dizem

O estudo revelou três achados centrais que todo líder financeiro deveria conhecer:

1. O apetite é real e amplo

94% dos CFOs indicaram que IA generativa pode beneficiar fortemente pelo menos uma área de atividade dentro da organização financeira nos próximos 12 meses. Não estamos falando de um benefício marginal — é uma maioria esmagadora reconhecendo potencial significativo.

Mais revelador ainda: 63% disseram que IA generativa pode beneficiar fortemente três ou mais atividades da função financeira. Ou seja, os CFOs não estão pensando em um caso de uso isolado — estão vendo potencial em múltiplas frentes.

2. A adoção está atrasada em relação ao entusiasmo

Apesar do otimismo, 71% dos CFOs pesquisados não estavam usando IA generativa em finanças e contabilidade no momento da pesquisa. Isso cria uma janela de oportunidade: quem se mover primeiro terá vantagem competitiva, porque a maioria ainda está parada.

3. A tendência é buscar o fornecedor conhecido

Onde os CFOs adotaram IA generativa, a tendência foi buscar ferramentas dos fornecedores que já usam — o ERP, a plataforma de FP&A, o sistema de contabilidade — em vez de adotar soluções nativas de IA. Isso tem prós (integração mais fácil, menor curva de aprendizado) e contras (funcionalidade limitada, dependência de vendor, potencial menor de transformação).

O gap entre orçamento e execução

Por que 79% querem gastar mais, mas 71% ainda não começaram? A nossa análise dos dados sugere três causas principais:

Falta de um business case estruturado. Muitos CFOs sabem que "deveriam investir em IA", mas não conseguem articular o retorno esperado com a mesma precisão que exigiriam de qualquer outro investimento. Ironicamente, os mesmos líderes que pedem ROI detalhado para aprovar um novo software de ERP aceitam investir em IA com base em FOMO (medo de ficar para trás).

Incerteza sobre onde começar. Com tantas áreas de aplicação possíveis — FP&A, contas a pagar, contas a receber, compliance, reporting, auditoria — a paralisia por análise é real. A BCV identificou que os CFOs mencionam persistentemente três prioridades: aumentar velocidade, aumentar sofisticação e, em alguns casos, reduzir custos.

Medo de errar em público. Para um CFO, que é tradicionalmente o guardião do rigor financeiro, investir em uma tecnologia que pode produzir resultados imprevisíveis é desconfortável. A aversão ao risco que faz bons CFOs pode ser exatamente o que os trava na adoção de IA.

Como construir um business case convincente

Com base nas práticas dos CFOs que já avançaram, identificamos um framework de cinco etapas para justificar o investimento em IA:

Etapa 1: Mapeie o custo do status quo

Antes de projetar benefícios, quantifique o que a ineficiência atual custa. Exemplos:

  • Quantas horas-pessoa são gastas mensalmente em reconciliação manual?
  • Qual é o custo de erros em lançamentos contábeis que precisam ser corrigidos?
  • Quanto tempo leva para produzir o fechamento mensal, e qual é o custo de oportunidade desse tempo?
  • Quantas decisões são tomadas com dados desatualizados (e qual é o impacto estimado)?

O custo do status quo é frequentemente subestimado porque é invisível — está distribuído em centenas de pequenas ineficiências que ninguém consolida.

Etapa 2: Defina casos de uso com ROI mensurável

Não tente justificar "IA para finanças" de forma genérica. Escolha dois ou três casos de uso específicos com métricas claras:

Caso de uso Métrica de sucesso Benchmark
Automação de contas a pagar % de processamento touchless Genpact: aumento significativo em touchless processing
Previsão de fluxo de caixa Redução do erro de forecast (MAPE) Empresas líderes: redução de 30-50% no MAPE
Reporting financeiro Tempo de ciclo de fechamento HPE: redução de 40% no ciclo
Detecção de anomalias Tempo de identificação de erros De dias para horas ou minutos

Etapa 3: Estruture em fases com marcos claros

CFOs são céticos por natureza (e devem ser). Estruture o investimento em fases:

Fase 1 (0-3 meses): Prova de conceito — investimento baixo, escopo limitado, objetivo de validar viabilidade técnica e gerar primeiros dados de ROI.

Fase 2 (3-6 meses): Piloto expandido — se a Fase 1 provou valor, expanda para um segundo caso de uso e comece a medir impacto operacional.

Fase 3 (6-12 meses): Escala — com dados reais de duas fases anteriores, o business case praticamente se escreve sozinho.

Essa abordagem faseada reduz risco e cria evidências incrementais que facilitam aprovação de orçamento adicional.

Etapa 4: Inclua custos ocultos (e seja honesto sobre eles)

Um business case que ignora custos ocultos perde credibilidade. Inclua:

  • Custo de integração com sistemas existentes
  • Custo de limpeza de dados (frequentemente o maior investimento inicial)
  • Custo de treinamento da equipe
  • Custo de governança (políticas, controles, auditoria)
  • Custo de manutenção contínua (modelos precisam ser atualizados)

Ser transparente sobre esses custos aumenta a confiança do board no business case.

Etapa 5: Articule o custo de não investir

Além do ROI positivo, articule o que acontece se a empresa não investir:

  • Concorrentes que adotarem IA terão custos operacionais menores
  • A capacidade de atrair e reter talentos financeiros diminui (profissionais querem trabalhar com tecnologia moderna)
  • A qualidade das decisões financeiras estagna enquanto o mercado acelera
  • O gap de maturidade tecnológica se torna mais difícil (e caro) de fechar com o tempo

O estudo da BCV projeta que 2025 marcou o início da adoção pela maioria. Quem esperar mais um ou dois anos estará correndo atrás.

Erros comuns na justificativa de investimento

Ao analisar business cases que não foram aprovados ou que geraram frustração pós-implementação, identificamos padrões recorrentes:

Prometer demais, entregar de menos. Projetar redução de 50% no headcount é o tipo de promessa que gera resistência política e raramente se materializa. É mais realista (e honesto) prometer realocar 30% do tempo da equipe de tarefas operacionais para atividades analíticas.

Ignorar a gestão de mudança. A implementação técnica é metade do desafio. A outra metade é fazer as pessoas adotarem as novas ferramentas. Orçamento para treinamento e gestão de mudança deveria ser pelo menos 15-20% do investimento total.

Comparar com benchmarks irreais. Usar resultados da HPE (empresa de tecnologia com infraestrutura própria de IA) como benchmark para uma empresa de médio porte brasileira é um erro. Use benchmarks de empresas com perfil similar ao seu.

Não definir baseline. Sem medir o estado atual com precisão, é impossível demonstrar melhoria. Antes de implementar qualquer coisa, documente: tempo atual de fechamento, taxa de erros, horas gastas em reconciliação, acurácia de forecast.

O que a BCV recomenda

A BCV identificou três temas que aparecem consistentemente nas conversas com CFOs que estão liderando a adoção:

  1. Velocidade: CFOs estão usando IA para aumentar a velocidade de análise, reporting e tomada de decisão. Não apenas "fazer mais rápido", mas ter informações disponíveis quando são necessárias, não dias ou semanas depois.
  2. Sofisticação: IA permite análises que seriam impraticáveis manualmente — cenários múltiplos, análise de sensibilidade em tempo real, correlações entre variáveis que humanos não identificariam.
  3. Redução de custo (com ressalvas): alguns CFOs estão obtendo redução de custo direta, mas a BCV nota que esse não é o driver primário para a maioria. O valor principal está em velocidade e sofisticação.

Ações práticas

  1. Quantifique o custo do status quo esta semana: reúna sua equipe e liste os cinco processos financeiros mais intensivos em trabalho manual. Estime horas-pessoa mensais e custo. Esse número é o piso do seu business case.
  2. Escolha um caso de uso "quick win": identifique um processo que seja repetitivo, baseado em regras claras e que gere frustração na equipe. Contas a pagar e reconciliação bancária são candidatos clássicos.
  3. Monte um business case em três páginas: use o framework de cinco etapas descrito acima. Três páginas, não trinta. Inclua: custo do status quo, caso de uso escolhido, ROI projetado, plano faseado, custos ocultos e custo de não investir.
  4. Defina o baseline antes de implementar: meça e documente o estado atual dos processos que você pretende melhorar. Sem baseline, não há como provar ROI.
  5. Busque primeiro no ecossistema que já usa: seguindo a tendência identificada pela BCV, comece explorando funcionalidades de IA dos fornecedores que você já utiliza. É o caminho de menor resistência e custo inicial mais baixo.